19 de ago de 2012

A disseminação da cultura do estupro

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Ao observar algumas mulheres de biquíni caminhando na praia, um grupo de amigos se questiona: “Já pensou se a gente fosse invisível?”. A suposição vira realidade e os homens (agora invisíveis e apenas notáveis como latinhas flutuantes) se aproveitam da situação para abusar das mulheres na praia e invadir o banheiro feminino.

Essa propaganda vem sendo veiculada na TV há alguns meses, pela Nova Schin. Ao primeiro olhar, pode parecer uma piada, uma brincadeira – mas pensando bem, tem algo profundamente perturbador nesses 40 segundos, que milhões de pessoas assistiram nos intervalos de seus programas favoritos.

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Não é novidade que as propagandas de cerveja, focadas no público masculino, tendem a apelar para o machismo: sempre com mulheres de corpos esculturais de biquíni, dando bola para o cara com a cerveja na mão. Se não é isso, é semelhante. Mas dessa vez, a questão é mais grave: a Nova Schin, mostrando uma brincadeira de amigos na praia, escancarou uma ferida na história da relação homem-mulher: a cultura do estupro.

Apresentar um grupo de homens atacando sexualmente mulheres não é, e nunca deveria ser, considerado piada. Tratar esse tema de forma cômica é tão prejudicial à questão quanto ignorá-la. É transformando um assunto importantíssimo em brincadeira, que difundimos essa cultura como inocente, enquanto se trata de um crime sexual gravíssimo.

É tratando dessa camuflagem de normalidade por cima desse crime sexual, que existe o termo “cultura do estupro” – bastante difundido em debates feministas, mas pouco conhecido pelo grande público. A cultura do estupro é, basicamente, um conjunto de crenças e máximas (absurdas) que minimizam a importância da violência contra a mulher. Alguns exemplos: acreditar que o homem é naturalmente violento e que isso justifica alguns atos agressivos; crer que o homem, por seu instinto animal, tem que se reproduzir e que isso explica algumas atitudes impensáveis; colocar sobre as vestes da mulher a razão de um estupro (quem nunca ouviu a frase “com essa roupa ela está pedindo para ser estuprada”?).

Existe uma luta muito grande para desconstruir a cultura do estupro, desfazendo essas crenças e esclarecendo alguns pontos. Quem acompanha discussões sobre o tema pela internet, vê o esforço que existe por parte de várias escritoras para esse processo. Infelizmente, o debate ainda está, em sua grande maioria, sendo feito por mulheres – enquanto deveria envolver ambos os gêneros. Mas, pensando de forma otimista, esse debate cresceu muito nos últimos anos.

E é exatamente por esse pensamento otimista, que a revolta por esse caso específico da Nova Schin é tão grande. Em um momento de esclarecimento e solução, é um grande retrocesso ter a cultura do estupro escancarada nos televisores brasileiros. É como se, enquanto alguns tentam resolver um problema, outros estão ali, batendo o pé para que ele persista.

E o que podemos fazer por isso? É simples: esclarecer. O grande problema da cultura do estupro é o quanto ela consegue parecer natural. Nosso dever, como comunicadores e formadores de opinião, é disseminar esse debate – mostrar para o maior número de pessoas que isso não é natural, e que o estupro, em qualquer forma, é crime. Nosso dever, acima de tudo, é abrir os vários olhos fechados que encontramos por aí.

As opiniões contidas nesse artigo refletem apenas o pensamento do autor e não do Comunicadores.info.

Escrito por Gustavo Di Lorenzo no Comunicadores.info.

Por Anderson Andujar.

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